Crônicas: Relatos de uma observadora

Crônicas: Relatos de uma observadora

Descobri!

Acho que descobri o que sou. Uma observadora. Que consegue integrar-se em meios muito diferentes, nunca deixando de ser eu própria. Descobri também a complexidade do ser humano. É claro que eu sabia que o ser humano é cheio de complexidades, mas pensar nisso a fundo é algo que nunca tinha feito.

De repente encontro-me num local, onde tenho que coexistir no mesmo espaço físico (restrito) com variados tipos de pessoas. Existem pessoas que simplesmente não falam, com medo de que algo que possam dizer seja mal interpretado ou não tenha interesse. Por vezes eu própria sou assim…

Há aqueles que gostam de ser o centro das atenções. Este grupo divide-se em, no mínimo, dois sub-grupos: aqueles que falam alto para se destacarem, não interessa que digam a maior parvoíce do mundo, que falem mal dos outros, que falem bem desses mesmos outros quando os mesmos estão presentes, ou que simplesmente tentem ser engraçados, muitas vezes para remediar uma situação em que afinal a pessoa de quem diziam mal até estava presente…

Depois há as vítimas. Nesse grupo, as pessoas discutem entre si (depois de se assegurarem que, para além da pessoa com quem estão a falar, têm uma audiência significativa), quem tem uma doença mais grave, a quem aconteceram mais desgraças, quem tem a dor mais forte, quem engordou mais por causa da medicação, quem tem um marido pior, quem “já passou mais na vida”. E podem estar horas nisto: ” Ando aqui no hospital há 13 anos sempre nisto, não há maneira de ficar curada!” “E eu? Já cá estou metida há 6 meses e nem sei quando vou ter alta…estou farta desta porcaria!” “Olha, houve uma vez em que cá estive quase um ano, fizeram-me todos os exames e mais alguns, e não descobriam o que eu tinha!” “Ai, por falar em exames, fiz um na semana passada, tu nem imaginas as dores que aquilo dá!”. E pronto, a conversa interminável sobre quem é a maior vítima continua até serem horas de ir para casa.

Há ainda os que estão na vida por estar. Sabem que têm uma doença, mas pouco lhes importa. Vagueiam pelos corredores, sem conversar muito com ninguém, à espera que o tempo passe, voltem para casa, e tudo volte ao mesmo, já que melhorar não é um objectivo, apenas estão onde os mandaram estar, e assim vão estando.

Depois há os engatatões. Uma pessoa do sexo feminino tem sempre encantos para eles. Hão de elogiar alguma coisa, quanto mais não seja o nome. São como abutres. Buscam, buscam, e acabam por encontrar quem caia na ladainha deles. Não importa se são comprometidos, casados ou solteiros, é algo que lhes está no sangue…

Existem ainda os protectores. Os que andam sempre a ver se os outros estão bem, e muitas vezes se esquecem deles próprios. Também me incluo neste grupo. É perigoso ser deste grupo. Porque alguém de um dos outros grupos pode interpretar mal a preocupação e dar-lhe um significado distorcido. No entanto, é tão gratificante estar com alguém que num momento chora, e depois de estar um pouco connosco, e o distrairmos, vermos um sorriso nesse rosto outrora triste e fechado!

Por fim, há aqueles que supostamente estão a tomar conta das pessoas. E que, também supostamente, são superiores em termos hierárquicos. E que ficam chateados quando alguém de um dos grupos supra citados mostra ser mais inteligente ou saber mais sobre alguma coisa do que eles. Não todos, alguns dão valor a quem demonstra esse tipo de qualidades, mas a maior parte não esconde a inveja e começa pela calada a tentar ferrar os calcanhares desses “espertinhos, que quem são eles para acharem que sabem mais do que elas?”
Ficam particularmente felizes quando essas pessoas infringem uma das regras. E aí perseguem-nas e fazem “queixinhas”, apresentando-se logo a seguir com um sorriso no rosto. Ai, como são irritantes estes seres…mas pior é para eles, afinal de conta vão toda a vida achar que são algo que não são…

Esta análise resume-se a uma amostra de cerca de 20 pessoas. Que durante 7 horas seguidas estão no mesmo local. E se relacionam. Apesar da sua complexidade e das suas diferenças. Não é fascinante? O ser humano, pelo meio da complexidade, tem uma capacidade de adaptação inata. Nem que seja só uma falsa adaptação. Às vezes – diria que a maior parte delas – uso a falsa adaptação para poder observar por dentro cada pessoa. E no fim acabo por me sentir um pouco mais sábia. Não superior a qualquer um deles, um ser humano, apenas, com os seus defeitos e características, mas que consegue conviver com todos eles. É bom sentir isso.

Resumindo: aquela história do “todos diferentes, todos iguais” é mesmo verdade. E é em locais como um hospital que conseguimos ver isso. Ninguém está imune ao que quer que seja, independentemente da sua maneira de ser, sabedoria, hierarquia ou mesmo condição económica…todos estão dentro das mesmas paredes, com problemas parecidos.

Não é perigosamente fascinante saber que todos, no fundo, somos só e apenas…seres humanos?

– Sofia Fidalgo